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  • Alberto Heller

Uma ópera em inglês no Brasil

A ópera-rock FRANKENSTEIN, cuja estreia se dará no final de junho deste ano

em Florianópolis, será toda cantada em inglês, com legendas eletrônicas em

português. Como compositor e autor do libreto, vários motivos me levaram a

essa escolha. Em primeiro lugar, a sonoridade da língua em que o livro foi

originalmente pensado e escrito: cada língua tem sua própria musicalidade, seu

canto, sua cor, suas interjeições e expressões, sua dinâmica, seu TIMBRE (termo

para nós músicos muito importante). No timbre ressoa o corpo e suas vivências,

sua temporalidade, sua expressão alargada – e cada idioma expressa diferentes

corporalidades. Embora a história de Frankenstein possa ser contada em

qualquer idioma, o estilo de Mary Shelley é muito próprio, e foi a esse estilo que

tentei dar voz (literalmente, já que se trata da voz cantada) nesta ópera.


Em segundo lugar (e para mim isso é muito importante), eu não queria que o

colorido vocal remetesse aos musicais. Isso não significa que eu não goste de

musicais: há muitos que eu verdadeiramente gosto e aprecio. Mas não é essa a

linguagem estética pela qual optei no caso desta ópera, onde a mescla se dá entre

o clássico e o rock (diferente da maior parte dos musicais onde o estilo pop fica

em primeiro plano). No Brasil praticamente todos os musicais são traduzidos e

cantados em português; se por um lado isso facilita a compreensão do texto por

parte da plateia, por outro lado produz um estranhamento em relação à

experiência sonora/auditiva/linguística que apenas a língua original pode

oferecer. No fundo, é um pouco daquela irritação que às vezes sentimos ao ver

filmes dublados: ficamos com aquela sensação de experiência de segunda mão.


Em terceiro e último lugar, o rock está intimamente associado à língua inglesa,

seja pela vertente britânica ou pela norte-americana; obviamente temos

exemplos fantásticos de excelente rock nacional, mas novamente minha escolha

se deu por questões de sonoridade (e não, como alguns possam vir a pensar, pela

via do preconceito em relação ao rock cantado em português). E aqui retorno à

primeira questão: o idioma do livro. Meu insistente retorno ao livro foi para

obter uma outra via que não a do cinema, que sempre transformou Frankenstein

numa história de terror. Nada contra (adoro a literatura e o cinema do terror):

mas toda opção implica numa sequência de decisões, e a opção aqui foi explorar

o trágico, o abissal, o existencial – a partir da musicalidade da língua inglesa e de

seu mundo sonoro.


Alberto Heller

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Informações: 48 3233 2324 | producaofrankenstein@gmail.com

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