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  • Alberto Heller

A cena do enforcamento


Na ópera-rock FRANKENSTEIN, o primeiro ato termina com o julgamento e

posterior enforcamento de Justine (interpretada pela soprano Masami Ganev),

injustamente condenada pelo assassinato do jovem irmão de Victor

Frankenstein, William (morto pela Criatura – que incriminou Justine deixando

junto ao corpo um colar que pertencia a ela). A multidão enfurecida (composta

basicamente por homens) clama pela forca chamando-a não apenas de assassina,

mas também de bruxa. Para compor essa cena, pesquisei vários relatos de

julgamentos (também de julgamentos por acusação de bruxaria) e inseri no texto

algumas das últimas palavras de condenados à morte – palavras cantadas por

Justine antes de sua execução, sempre intercaladas por trechos onde o coro a

confronta e continuamente a acusa.


“Sou uma bruxa tanto quanto vocês são feiticeiros, e se tirarem minha vida, Deus

lhes dará sangue para beber” (últimas palavras de Sarah Good antes de ser

executada por bruxaria em Salem, Massachusets, em 1692).

“Ouçam-me, homens de violência; pena de morte é assassinato, portanto os

assassinos aqui são vocês, não eu! Vocês se vêem como “pessoas de bem”, e

pessoas de bem estão sempre tão certas de terem razão... Mas vocês não estão!”

(últimas palavras de Robert Drew antes de ser executado em 1983).

“Estou prestes a morrer por um crime que não cometi, que outra pessoa

cometeu. Eu sou inocente, inocente, inocente! Não se enganem quanto a isso! Não

devo nada à sociedade; sou uma mulher inocente e algo muito errado está

acontecendo aqui esta noite” (últimas palavras de L. Herrera antes de ser

executada em 1993)

“Eu não os perdôo – e espero que Deus também não (referência inexata).

Aproveitei essa cena para ressaltar as constantes violências e injustiças sofridas

contra as mulheres; ainda nela, Elizabeth (interpretada pela soprano Carla

Domingues) se junta a Justine e ambas cantam: “Vocês são homens cruéis,

estúpidos e brutais. Vocês chamam de bruxaria tudo que não podem entender,

tudo que não podem suportar, tudo que não podem amar. Bruxas são suas

esposas e irmãs, bruxas são suas mães e filhas. Bruxa é a parte feminina de vocês

mesmos, a parte que não querem ver nem reconhecer. Vocês nos matam porque

têm medo; vocês nos torturam porque são covardes; vocês nos envergonham

porque são fracos”.


A música aumenta estrondosamente de volume; no momento da morte, súbito

silêncio: fecham-se as cortinas, final do primeiro ato.


Alberto Heller

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Informações: 48 3233 2324 | producaofrankenstein@gmail.com

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